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“Para mim, o presente é para sempre, e o eterno está sempre mudando, fluindo, se dissolvendo. Este segundo é vida e quando passa, morre. Mas você não pode recomeçar a cada novo segundo: tem de julgar a partir do que já está morto. Como areia movediça… invencível desde o início. Uma história, uma imagem, pode reviver algo da sensação, mas não o bastante. Nada é real, exceto o presente e mesmo assim já sinto o peso dos séculos a me esmagar. Uma moça há cem anos, viveu como vivo. E ela está morta. Sou o presente, mas sei que também passarei. O movimento culminante, o relâmpago fulgurante, chega e some; contínua areia movediça. E eu não quero morrer.”

(…)

“Vi a neve no Smith pela primeira vez. É como qualquer outra neve, mas eis-me aqui, portanto, em meu quarto. (…) Não dá para me enganar e escapar à constatação brutal de que não importa o quanto você se mostre entusiasmada, não importa a certeza de que caráter é destino, nada é real, passado ou futuro, quando a gente fica sozinha no quarto com o relógio tiquetaqueando alto no falso brilho ilusório da luz elétrica. E se você não tem passado ou futuro, que no final das contas são os elementos que formam o presente todo, então é bem capaz de descartar a casca vazia do presente e cometer suicídio.”

Ao mesmo tempo  em que “cultua” a morte e cogita o suicídio em vários de seus escritos (em alguns descreve suas tentativas frustradas), afirma não querer morrer. A sensação de peso ao sentir a vida escapar pelos dedos, o passar inevitável das horas e o eterno ciclo “vida-morte-vida-morte” são temas presentes em várias de seus poemas, o que pode sugerir  influência de Virginia Woolf, uma de suas escritoras prediletas.

“Ah, é duro para mim me reconciliar com isso tudo. Talvez por isso eu seja uma moça: assim posso viver com mais segurança que os rapazes que conheci e invejei; ter filhos e instilar neles o desejo intenso de aprender e amar a vida que eu jamais chegarei a sentir plenamente, pois não há tempo, pois não há mais tempo, em vez disso há o medo súbito e desesperado, o relógio que bate e a neve que cai de repente demais após o verão. Certo, sou dramática e meio cínica, indolente e meio sentimental. Mas nos anos fáceis poderei amadurecer e descobrir meu caminho. Agora estou vivendo numa situação crítica. Estamos todos na beira do precipício, isso exige muito vigor, muita energia, seguir pela borda, olhar para baixo, ver a escuridão profunda sem ser capaz de identificar através da névoa amarelada e fétida o que jaz abaixo do lodo, na lama que escorre cheia de vômito; e assim sigo em frente, imersa nos meus pensamentos, escrevendo muito, tentando achar o centro, um significado para mim.”

(…)

“Se eu superar este ano, despachando meu demônio quando ele surgir, dando conta de que ficarei cansada após vários dias de trabalho e exausta depois de corrigir as provas, concluindo que trata-se de um cansaço natural e não algo para ser lamentado com horror, serei capaz, pouco a pouco, de encarar a vida, em vez de fugir correndo a cada aceno do sofrimento.”

(…)

“O demônio me humilha; faz com que eu me ajoelhe perante o reitor da faculdade, do meu chefe de departamento, de todos, chorando: olhe para mim, maldito, sou incapaz. Falo dos meus medos para que os outros os alimentem. Preciso assumir uma postura calma e lutar contra o demônio dentro de mim, sem jamais lhe dar a dignidade de uma aparição pública, fugindo dele, sem cair em suas garras. Trabalharei em minha sala das nove às dezessete, em geral, até perceber que estou me saindo melhor na sala de aula. De todo modo, farei coisas relaxantes, lerei outros livros de noite. Permanecerei intacta, distanciada do emprego, do trabalho. Eles não podem exigir de mim mais que o melhor e só eu sei realmente onde se situam os limites da definição de melhor. Tenho escolha: fugir da vida e me desgraçar para sempre, pois não posso ser perfeita de cara, sem dor e fracasso, ou enfrentar a vida em meus próprios termos e fazer o melhor possível.”

Nestes trechos Sylvia refere-se  à sua luta contra a depressão, ao esforço que fazia para parecer uma pessoa “normal” e conciliar os afazeres de mãe e dona-de-casa com seu trabalho de professora.

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Sylvia PlathSylvia Plath (1932-1963) foi uma poetisa estadounidense (da cidade de Boston), casada com o poeta Ted Hughes (ótimo escritor na minha opinião), com quem teve dois filhos.

É conhecida principalmente por suas obras “Ariel” (publicada em 1965), que consiste numa coletânea de poemas e pelo seu único romance, de cunho auto-biográfico e “A  Redoma de Vidro” (1963).

É importante o conhecimento da história de vida dessa poetisa, para compreendermos profundamente seus poemas e percebermos o quanto ela ousou em sua obra. Creio que ninguém consegue “passar” por Sylvia e continuar imune a ela: vai amá-la ou desprezá-la.

Para quem quiser “se iniciar” em Sylvia, recomendo primeiramente leituras biográficas em sites ou nos livros “A Redoma de Vidro” e “Os Diários de Sylvia Plath” (que contém textos extraídos de seus diários pessoais). Outra dica: creio que as traduções de seus poemas feitas por Ana Cristina Cesar (que não são fáceis de serem encontradas), conseguem se aproximar mais dos originais.

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